terça-feira, 12 de maio de 2020

ROCK IN RIO

de repente a cidade toda entra num alvoroço só - Rock In Rio! não se falava em outra coisa.
todas as rádio começaram a tocar rock. tudo era rock. ou new wave. começaram a tocar B-52s e Billy Idol exaustivamente. Whitesnake, Scorpions, Queen então nem se fala. James Taylor, Al Jarreau, George Benson, meio que tinha para todos os gostos. eram velhos, adolescentes, jovens num geral.
o natal foi bom pra todo mundo, acho que nunca as gravadoras encheram tanto o bolso de dinheiro. imagina uma banda como o DEVO que nunca foi significante para a Warner no Brasil, vender sei lá quanto por conta de um festival. isso porque o DEVO não tocou no rock in rio, mas foi alavancado junto. tipo se era "new wave" tá valendo.
nessa época eu já não estava curtindo tanto mais o som pesado. eu tava mais pra ratos de porão, cólera etc do que qualquer outra coisa. tipo aos quatorze anos voce começa a tentar entender melhor o que acontece com o seu mundo, a gente tava saindo de uma ditadura, teve anistia, todo um movimento de diretas já acontecendo. e voce ouvindo musicas como "quanto vale a liberdade?" e "F.M.I." . sempre que eu podia, trocava uma ideia com a minha professora de historia. ok que ela era brizolista, mas me explicava sobre anarquismo autogestão essas coisas todas. "o que é punk" se tornou o meu livrinho de cabeceira. queria cada vez mais entender quem foi marx, engels, etc...
mas eu pensava que tinha que ir de qualquer maneira no festival, afinal eu tinha curtido o iron maiden, o acdc, o black sabbath, essas coisas. tinha que vê-los ao vivo, talvez fosse a unica chance na vida!
um pequeno obs; muitos anos depois, no rock in rio 3, eu teria a chance de pedir autografo pros caras do iron maiden no vinil do powerslave que eu tinha guardado da época. esse era o disco que tinha sido lançado um pouco antes do primeiro rock in rio. os caras ficaram me olhando tipo uau! voce tem esse disco!e eu falava que fiquei esperando anos por aquele momento.

fui em dois dias - no primeirão, com direito a vaiar o kadu moliterno falando besteira na abertura.coitado o colocaram lá porque ele seria "representante de uma geração". sei que foi mó doidera, com ney matogrosso, erasmo carlos, baby e pepeu.
de repente muda o palco e entra o whitesnake, tipo tudo muda. os chamados "metaleiros" se amontam na frente do palco pra ver david coverdale, ex-deep purple, e o novo guitarrista - john sykes, que manda bem nas firulas. muda tudo de novo e de repente surge o que todo mundo foi pra ver - o iron maiden, com luzes piscando pra tudo que é lado, steve harris pulando pra tudo que é lugar, dave murray solando, é tudo uma loucura só. tipo um sonho se realizando na sua frente. logo no começo do show, o vocal se machuca tocando guitarra. a galera vai ao delirio. mas nada impede que o show continue, muita gente falou em encenação, se foi ou não, fez parte do espetaculo.
o mais legal de verdade foi a entrada do EDDIE, a mascote da banda. cara, foi tudo muito foda. quando acaba o show voce para e fala, como é que vou encontrar o meu pai num mar de gente como esse?
um pequeno detalhe, meu pai foi quem me levou pro rock in rio. em janeiro de 1985 eu ainda tinha 14 anos e o meu mundo se resumia praticamente em ir pra escola e voltar pra casa. eu não fazia ideia onde estava. a sorte é que ele estava onde a gente tinha combinado. coitado, ele com uma cara de quem não aguentava mais. na verdade nem eu.
foi um dia inteiro de muitas emoções. um dia inteiro lá naquela confusão. fila pra lá fila pra cá, banheiro lotado, hamburguer do bobs, fora que ainda tinha que voltar pra casa. isso tudo era em jacarépagua, perto do rio centro, num lugar onde não tinha nada, no meio do nada de verdade.
ele me olhou e disse - e ai, já foi? eu não fazia minima questão de ver o queen e tambem não aguentava mais, fomo embora com um sorrisão no rosto.
isso porque foi apenas o primeiro dia. ainda teria um outro dia que iria pra ver o acdc e o ozzy osbourne.
como já tinha ido a primeira vez, meu pai liberou de ir sozinho. apenas disse pra eu tomar muito cuidado.como já tinha passado quase dez dias do evento, tudo já estava mais facil. eram reportagens direto de lá mostrando tudo que acontecia entre os shows. na tv eram transmitidos ao vivo muitos dos shows. os nacionais foram que se fuderam muito. imagina o véio erasmão tomando uma vaia do começo ao fim dos "metaleiros", ou eduardo dusek. as bandas "iniciantes" como os proprios paralamas, ou os kid abelha se fuderam muito em relação ao equipamento, era visivelmente prejudicados pelo som, aquela coisa de ninguem mexe no som dos gringos. uma das poucas bandas nacionais que se deram bem foram os paralamas tocando "inutil" do ultraje a rigor e os barão vermelho tocando "pro dia nascer feliz", lembrando que era perto das diretas já.
tinha a coisa da lama, como era verão, teve as famosas chuva de verão. e como lá era um mangue só, imagina como ficou? virou rock in lama.
mas acho que a coisa mais engraçada mesmo foi a tal profecia de NOSTRADAMUS, dizia-se que o tal profeta previu um grande festival na america do sul que iria acontecer uma tremenda tragedia. ainda bem que não aconteceu nada disso.
enfim, assisti um repeteco do whitesnake, não aguentava mais "love ain't no stranger". no meio do show do ozzy, passa um cara do meu lado com uma galinha morta dizendo que ia tacar no palco. tinha essa coisa que o ozzy comia morcego, pintinho, matava galinha, só faltava fazer uma macumba no palco. nada disso. e finalmente o famoso sino do acdc anunciava o show. vou dizer - foi foda.
roberto medina, o criador do festival se deu bem. depois ele faria mais dois ou tres e viraria uma franchising tendo o rock in rio lisboa, rock in rio estados unidos etc.

realmente tudo mudou a partir do rock in rio. o rio entrou na rota dos grandes shows gringos. antes disso tinha tido show do queen, do kiss e do the police. o termo "metaleiro" criado por algum jornalista é usado até hoje como referencia à pessoa que curte heavy metal e que anda de roupa preta.
entre mortos e feridos salvaram-se todos.