sexta-feira, 22 de maio de 2020

MACONHA

o fabiano veio de são paulo. ele tinha um visual meio pós-punk com um topete todo arrepiado. o marcio parafina como o nome diz, tinha o cabelo loiro parafinado, era um surfista que só pensava em ir pra praia pegar onda. e eu o punk dos tres. juntos a gente andava pra lá e pra cá no colegio. era engraçado porque olhando assim, um não tinha nada a ver com o outro. e o pior é que a gente trocava varios sons e ideias. éramos os repetentes, os mais velhos. e viviamos colados.
só na hora de ir embora do colegio é que eles dois iam juntos e eu ia pra casa.

não lembro qual foi a treta em casa que um dia eu cheguei nos dois e falei: eu quero fumar maconha!
eu sabia que eles fumavam e eu já meio que sabia de tudo que acontecia em relação à droga, só nunca tinha fumado. sempre nos shows eu ficava sentindo o cheiro do beck e curtia muito. achava gostoso o cheiro. tem gente que passava maus, eu adorava. mas como aqui em casa era todo mundo careta em relação à isso, não se podia falar o nome.
em algum lugar do passado tinha tido uma treta com um tio em relação à droga, tipo ele foi pego numa boca de fumo e levou um tiro no pé, acabou aleijão pro resto da vida e meio que desgraçou a historia toda, mas vou deixar pra contar isso uma outra vez.

enfim, um dia cheguei e pedi pra ir fumar um com eles. eles riram e perguntou se eu tinha certeza do que estava fazendo. eu disse que era naquele dia ou nunca!
aos quinze anos eu já tinha lido e relido o livro da christiane F. várias vezes, como todo mundo da minha geração. tinha aquela coisa do efeito ao contrario que o livro faz, dizem que ele foi idealizado por uns medicos por conta de que muitos adolescentes alemães estavam se drogando muito e morrendo de overdose. como era uma historia romantizada, virou um best-seller e não surtiu o efeito que queriam. alias, muitas pessoas que liam o livro meio que acabavam que queriam experimentar as drogas. pelo menos esse foi o meu caso.

não lembro se eu já tinha tomado o meu primeiro porre, mas sei que eu já fumava cigarro. teve a coisa de cheirar loló e benzina, mas eu realmente não lembro que droga veio primeiro. só sei que eu queria porque queira fumar maconha naquele dia.

e fomos os tres pra casa da mãe do marcio no leblon.
coitados, primeiro eles apertam um tora, fumamos  e em mim, nada acontece. fico ali reclamando que nada aconteceu. eles vão e apertam outro. nada. rola um terceiro e nada. eles rindo sem parar e eu com aquela cara de tacho. fiquei puto e fui embora. óbvio que eu devia ter ficado doidão, só que não bateu do jeito que eu achava que ia bater. normal, acontece esse tipo de reação com algumas pessoas.
só que eu não sabia.

depois dessa experiencia desastrosa eu deixei um pouco isso de lado. acabei fumando mais umas poucas vezes e nada.
no aniversario do paulinho, num sitio em petropolis, foi a primeira vez que bateu.
e foi mó doido. eu tavo ouvindo um disco do pink floyd no walkman e de repente comecei a gritar que vinha um trem. e todo mundo começou a rir, tipo - tira o fone do ouvido, não tem trem nenhum!  hahahahahahahah

depois disso comecei a fumar com mais frequencia.
no começo eram um ou dois que fumavam na rua, depois virou tres ou quatro.
tinha um cara que já tinha sido pego pelos pais, não lembro da historia direito mas sei que ele tinha sempre bagulho em casa. foi na geladeira dele que vi pela primeira vez 3K de maconha. isso porque antigamente a maconha que tinha no rio era solta, eram os famosos camarões.

era a epoca que ficava na rua até tarde, e sempre juntava uns tres quatro à espera desse cara chegar em casa pra ver se ele arrumava um pra nós pitá. e sempre rolava.
um dia, do nada ele vem com um fumo novo, diferente. era algo entre o solto e o prensado, uma coisa bem diferente do que a gente tava acostumado a fumar. e foi um pancadão só. eu apelidei de mike tyson. o lutador era a novidade da epoca. nenhuma luta durava mais que dez segundos e o oponente caia no chão por nocaute. era mais ou menos assim quando voce fumava esse bagulho novo.
esse amigo da gente falava que uns amigos dele iam pra praia de manhãzinha, ainda de madrugada quando ainda não tinha saido o sol. e ficavam esperando o sol refletir algo no mar. dae era aquela coisa de ir até onde brilhava, pegar a parada e sair correndo pra fora da praia em algum lugar seguro.
eram as famosas latas recheadas de maconha.

sim meus amigos, eu fumei MUITO a maconha da LATA.