sexta-feira, 15 de maio de 2020

30 anos de cigarro.

meu pai sempre fumou muito. não lembro dele sem cigarro. minha mãe diz que nunca fumou mas eu lembro dela com um cigarrinho na mão sim.
eu sempre disse que comecei a fumar por conta de uma foto que achava manero. eu realmente não lembro, mas lembro bem daquela sensação de tonteira dos primeiros tragos. era mó bom sair um pouco do "chão", coisa de gente adicta.
aos poucos ia roubando um cigarro do meu pai aqui, um cigarro do santo ali.
(tinha o cigarro do santo num corredor perto da cozinha, ficava meio escondido. uma vez tive que comprar um maço porque tinha fumado todo ele).
no colégio eu sempre dava um jeito de fumar, tinha um palco de teatro com uma cortina enorme. eu acendia o cigarro e ficava com a mão por debaixo da cortina, não sei como não botei fogo naquela parada. e sempre vinha alguma menininha pedir um trago.
na visconde da graça ninguem sabia que eu fumava escondido. uma vez foi mó galera na casa de uma menina que fumava, todo mundo pegou um cigarro e acendeu, de onda. a mina ficou puta porque gastamos todos os cigarros dela. e eu fumando de boa, ate que alguem reparou que eu tragava.
eu sempre fumava na janela. meu quarto devia feder a nicotina, tipo o fumante não sente o cheiro da fumaça. fumava muito no banheiro antes do banho.tanto o quarto quanto o banheiro eram devidamente banhados a desodorante pra disfarçar o cheiro (até parece que saia o cheiro, só piorava a coisa)
fora que eu sempre jogava a guimba pela janela; lá embaixo era um tal de guimba pra tudo que é lado.
um belo dia meu pai dá o flagra. ele apenas diz que eu podia fumar dentro do quarto de boa e ainda por cima me deu um cinzeiro de presente.
minha mãe que não gostou muito. eu tinha 14 anos ainda.
comecei com o galaxy, que na epoca era o cigarro que todo mundo começava a fumar, depois que viria o free, mas eu curtia esse cigarro. um belo dia foi que alguem me apresentou o famoso MARLBORO VERMELHO CAIXA.
pior que quando eu era pequeno, tinha aquelas canetinhas hidrocor que vinham numa caixinha igual ao marlboro caixa, tipo a gente já era induzido à esse cigarro
cara, foram anos e anos e anos de fumante. de MARLBORO VERMELHO CAIXA claro, ou como dizia minha ex, MARLBORÃO.

da vez que me mudei pro Bixiga, em são paulo, levei comigo uma tosse escrota que não parava de jeito nenhum. mesmo quando eu tava todo fudido de gripe, ou de qualquer coisa, eu sempre fumei, nunca deixei de fumar. eu sempre disse que quando morresse queria que alguem colocasse um pacote de cigarro junto ao meu caixão pra eu ser enterrado e não sentir falta do cigarro.

voltando ao Bixiga. eu fiquei com uma tosse uns dois meses. chegou num ponto que eu dormia e acordava tossindo. eu comia e quase vomitava tossindo, tinha dor na barriga de tanto que tossia. e fumando.sempre.
a mina que morava na casa virou um dia e disse, porra cara, voce deve estar com ou bronquite ou algo pior, vai na porra do SUS que tem aqui perto. e lá vamos nós pra famosa fila do SUS.
mas foi otimo, alem de exame dos exames de sangue eles me deram um baita susto fudido
era tava muito magro porque não conseguia comer direito, todo tatuado, pra eles do SUS, eu era praticamente um cracudo nóia. e dále exame de sangue.
enfim, depois de ir pra lá e pra cá por conta de tirar raio X, exame aqui exame ali, finalmente ia ser atendido pelo clinico-geral. acabou que não deu tempo, mas ele viu entre um paciente e outro e disse - carlos, esse lado aqui do seu pulmão tem um furinho aqui. isso aqui voce esquece, tipo já era. mas o problema mesmo é o outro lado, tá vendo essa nuvenzinha aqui, isso pode se transformar um enfisema pulmonar, dae voce já era de verdade. - mas seu doutor clinico-geraldo, como faz? ele disse que era pra parar de fumar ou pelo menos diminuir.
dae começa uma saga pra fumar menos, vi que não conseguia. resolvi começar a fumar cigarro de filtro branco, que era horrivel, bem mais fedorento que o meu velho e bom marlboro. enfim, comecei a fumar L&M light. achava aquilo tudo uma merda.

como eu parei de fumar? ah isso é uma outra historia.
eu já morando de volta ao rio de janeiro, era aniversário da Clarinha, filha de uma amiga. ela me chama pra festa dela. só que eu não tinha dinheiro suficiente pra ir pra festa. quer dizer, eu tinha ou pra passagem de buzão ou pra comprar cigarros depois. viciado é uma merda, adivinha o que eu fiz?
no dia seguinte a irmã da mãe da Clara me liga e pergunta porque eu não apareci. eu morrendo de vergonha expliquei o caso. ela me deu O esporro. na mesma hora eu resolvi que tinha que parar de fumar.

foram uns trinta aos de fumante. até hoje eu sinto que não recuperei totalmente. mas me sinto MUITO melhor. hoje eu sinto gosto da comida, o cheiro das coisas, eu consigo respirar direito.
vejo o cigarro como a pior das drogas, a droga que é tolerada em qualquer lugar.
minha mãe odeia cigarro, mas ela deixava eu fumar na janela.
sempre se dá um jeito de fumar em quase qualquer lugar. é horrivel isso tudo.
mas cada um cada um.